Entrevista exclusiva com a Tenente-Coronel Andréa Firmo

Dra Eduarda Hamann, do Instituto Igarapé, entrevista mais uma vez a Tenente-Coronel Andréa Firmo, do Exército Brasileiro.

 

 

DESTAQUES:

  • Foi a primeira mulher do Exército Brasileiro a exercer a função de observadora militar em missão da ONU;
  • Foi a primeira mulher a assumir o cargo de Team Site Commander da MINURSO.

 

Na primeira entrevista, publicada pelo Instituto Igarapé em 19/04/2018, a militar acabara de se apresentar no quartel-general da Missão das Nações Unidas para o Referendo do Saara Ocidental (MINURSO). Além de compartilhar suas expectativas e de especular sobre os desafios que teria pela frente, também nos contou sobre como se preparou para esse momento tão importante em sua carreira, que é o de servir no exterior carregando, em um braço, a bandeira do Brasil e, no outro, a bandeira da ONU.

 

Sua missão chegou ao fim em abril de 2019 e, direto de sua base no Saara Ocidental, a TC Andréa Firmo nos enviou detalhes sobre seu tempo no deserto, avaliou os resultados de sua atuação e partilhou emoções dos momentos que antecedem o seu retorno ao Brasil.

 

Já se passaram 12 meses de nossa primeira conversa, quando você mencionou que, entre as suas motivações, estaria a possibilidade de fazer a diferença no terreno. Fez mesmo a diferença?! Como era a situação em abril de 2018 e como é agora, em abril de 2019?

 

Há um ano, fazer a diferença no terreno significava fazer algo relevante para a missão. Hoje vejo que é muito mais do que isso. Envolve um compromisso integral, com resiliência e com esforço constante de superar limites físicos e psicológicos em função de um futuro melhor.

 

Além disso, creio que a minha presença como mulher militar e como comandante de uma base militar (team site) trouxe maior aproximação entre a missão e a comunidade local, que é muçulmana (principalmente mulheres e crianças). O contato diferenciado pela presença de uma líder militar mulher parece ter aprimorado a confiança na missão, na medida em que as falas locais puderam ser ouvidas de outra forma.

 

Quais foram os principais desafios?

 

Enquanto militar, o meu principal desafio foi o de liderar uma equipe de 18 observadores militares de várias nacionalidades, privilegiando o equilíbrio emocional e o espírito de corpo entre todos. O respeito à diversidade cultural e ao gender foram norteadores de meu trabalho, salientando sempre a questão da neutralidade e imparcialidade, inerentes à função desempenhada pelos observadores militares da ONU.

 

Enquanto mulher, o meu principal desafio foi o de aprimorar a empatia para que eu pudesse realmente ouvir e interpretar a demanda tão peculiar do povo da região, principalmente das mulheres, e poder agir na minha esfera de autonomia para a resolução dos mais variados problemas. Algumas demandas nunca haviam sido relatadas a nenhum comandante.

 

Que funções você exerceu em sua participação na MINURSO?

 

Quando cheguei à MINURSO, em abril de 2018, fui designada para o Team Site Mijek, onde fiz um curso de seis semanas de Líder de Patrulha. Com isso, pude atuar em todas as tarefas típicas dessa função: primeiro motorista, líder de patrulha, segundo motorista e navegador. Ainda em Mijek, desempenhei as funções de Oficial de Gerador, Oficial de Relações Públicas (G5) e Oficial de Pessoal (G1). Após três meses de missão, fui designada Oficial de Treinamento da Força no Quartel-General da MINURSO e, em seguida, fui nomeada Comandante do Team Site Tifariti, do lado leste do conflito entre a Frente Polisário e o Marrocos.

 

Quais as principais tarefas desempenhadas (das mais simples às mais complexas)? Quais te deram maior alegria e quais foram mais frustrantes?

 

As funções de Oficial de Gerador, de Primeiro Motorista e de Navegador são muito importantes e exigem atenção o tempo todo, embora pareçam simples. Os geradores são de extrema importância para o pleno funcionamento da base (team site) e exigem constante monitoramento, várias vezes ao dia. A função de Primeiro Motorista, por sua vez, também requer muita atenção, pois as trilhas são rústicas, com trechos arenosos, escorregadios ou com muitas pedras, além do perigo constante com as minas terrestres. Por fim, a função de Navegador exige pleno domínio de GPS e habilidade para achar o melhor caminho para a patrulha, em meio a muitas trilhas.

 

As funções que me deram maior alegria estavam relacionadas à recepção e ao preparo de quem chegava à missão. Como Oficial de Treinamento da Força, conduzi o In-processing Induction Training das duas primeiras mulheres oficiais mulçumanas da MINURSO, oriundas da Jordânia. E como Comandante de Team Site, tive a oportunidade de aprender, de maneira ímpar, a lidar com desafios extremos, através da coordenação de equipe multicultural, buscando valorizar cada talento para que pudéssemos atingir a excelência no resultado.

 

Salvamos muitas vidas no deserto, por meio de evacuação de emergência, realizadas com nossos helicópteros, inclusive com montagem de pistas para pouso noturno ou diante de fortes tempestades de areia que dificultavam ou mesmo impediam o pouso. Mas foi muito frustrante lidar com o sentimento de não conseguir salvar outras vidas. Eu me lembro particularmente de três casos: a mulher saaraui picada pela venenosa cobra de chifres do deserto, outra mulher que sofreu parada cardíaca e o bebê de quatro meses que se foi por desidratação avançada.

Que legado você deixou para a missão e para o povo local? Em que medida contribuiu para que a MINURSO cumprisse com os seus próprios objetivos?

 

Acredito ter deixado como legado, para o povo local, um reforço da confiança mútua entre a MINURSO e a Frente Polisário. Graças a uma convivência pacífica e bastante fraterna, estou certa da necessidade  e da importância da MINURSO para garantia da paz para o povo local. O período de cessar-fogo (a primeira de quatro fases do Settlement Plan) é de extrema relevância para o entendimento de ambas as partes. Como este período vem se estendendo por muitos anos, o sentimento da população é de descrédito de que a missão esteja cumprindo o seu papel. Assim, durante meu comando do team site, por meio de reuniões de mediação com os Liason Officers e comandantes das regiões locais, bem como com representantes de diversos órgãos internacionais que apoiam o povo local, pude perceber que o tom da fala de uma mulher militar comandante nesta região (fato inusitado até então) trouxe um estilo novo de interação entre a MINURSO e a Frente Polisário.

 

Saio com a certeza de que esse pioneiro gender approach em que fui inserida, graças à implementação contínua da Resolução 1325 pelo Secretário-Geral da ONU, conseguiu, de maneira autêntica e transparente, contribuir com uma pequena parcela para alcançar o objetivo geral da missão.

 

Como é a desmobilização de observadores militares do Exército, depois que voltam ao país? Tem diferença se é uma missão coletiva ou missão individual?

 

A desmobilização fica a cargo do COTER, que faz um excelente trabalho de apoio aos militares, tanto nas missões individuais (meu caso), quanto em contingente. Fazemos uma série de exames de saúde, físicos e psicológicos, que são comparados com os anteriores à missão. Além disso, apresentamos nossos relatórios de feedback (quanto à nossa performance na missão) e analisamos com a equipe os resultados de nossa atuação. É um trabalho de excelência, conduzido por uma equipe de profissionais altamente qualificados e experientes.

 

As desmobilizações tanto individuais, quanto as dos contingentes são realizadas durante 1 semana no Centro de Estudo de Pessoal (CEP), no Forte do Leme, Rio de Janeiro/RJ.

 

Quais as suas expectativas (profissionais e pessoais) com relação ao retorno?

 

Espero que a minha experiência na MINURSO traga frutos para as próximas gerações de observadoras militares brasileiras. Tenho a obrigação – e terei grande prazer – de repassar o que vivenciei nestes 12 meses e 14 dias da missão mais desafiadora de minha vida.

 

As minhas expectativas pessoais estão voltadas a filhos, marido e pais – principalmente os filhos, que acompanharam tudo virtualmente, dando “aquela força”, e que agora precisam ser recompensados com a presença física da mãe.

 

O que pretende fazer com tudo o que aprendeu e vivenciou nos últimos 12 meses?

 

Pretendo registrar tudo o que vivi em um livro e lançá-lo pela Bibliex. Uma missão como essa é uma lição de vida. A gratidão será meu combustível para contar essa história com todos os detalhes que ela merece.

 

Que mensagem gostaria de transmitir a outras mulheres brasileiras (militares, policiais e civis) que pensam em desbravar novos caminhos no exterior?

 

Minha mensagem é a de incentivo àquelas que sentiram o chamado em sua alma militar. Esse é o verdadeiro motivo pelo qual deixamos as nossas famílias, nossos amigos e nosso país, e nos lançamos ao desafio de tentar contribuir, com o nosso melhor, para a manutenção dos acordos de paz entre nações em conflito. Nos aguardam mulheres e crianças que necessitam de voz para que possam ser devidamente protegidas e instruídas. Esperam pela ajuda e pela orientação das boinas azuis. E quando o sangue nas veias é brasileiro, um sorriso imediato se abre em todos os rostos, inclusive nos do deserto do Saara!

 

AREIA! Esse agora é o meu brado de guerreira!

 

BRASIL!