Registradas em dados e ocorrências, violências múltiplas contra mulheres negras revelam cenário de racismo institucional

Maioria entre mulheres vítimas de assassinatos – também em decorrência de ações policiais – e entre mulheres encarceradas, negras também são a maioria das mães que lutam por justiça para seus filhos assassinados por agentes do Estado

Por Maíra Baracho e Vitória Régia da Silva

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Era 8 de outubro de 2017 e o Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro havia entrado na comunidade Cidade de Deus, na capital fluminense. Na mira da abordagem aquele dia estava o filho de Marisa de Carvalho Nóbrega, 48 anos. Segundo testemunhas, os agentes insistiam que o adolescente, por estar bem vestido, assumisse o envolvimento com o tráfico de drogas na região, quando Marisa chegou. Ao tentar defender o filho, ela levou uma coronhada de fuzil na nuca dada por um dos policiais. Dois dias depois, morreu em uma unidade pública de saúde.

O laudo de necropsia, elaborado por peritos da Polícia Civil do Rio de Janeiro, descartou que a morte de Marisa tenha sido causada por violência. “Aneurisma, morte natural”, diz a polícia, que segue investigando e não quis comentar o caso, que corre em segredo de Justiça, “para não prejudicar as investigações”, segundo resposta dada à reportagem.

De acordo com o Atlas da Violência, realizado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as negras foram a maioria entre as mulheres vítimas de ações violentas de agentes públicos, em ocasiões registradas pelo Datasus como “óbito por intervenção legal”. Entre 2007 e 2016 – último ano cujos microdados podem ser acessados -, elas foram 64% destas vítimas entre as mulheres. No último ano analisado, as negras foram 60% das mulheres mortas neste contexto.

Entre 2015 e 2016, o número de pessoas negras que morreram em decorrência de intervenções policiais foi mais de três vezes maior do que o de pessoas brancas, segundo os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. De acordo com o levantamento, 55% das vítimas foram negras, diante de 16% de brancas – e em 28% dos casos não houve registro de raça.

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