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Interferências de robôs revelam ‘vulnerabilidade dos sistemas democráticos’, diz pesquisador de Oxford

Estadão

Dezembro, 2017

Pesquisador de cibersegurança da Universidade de Washington (EUA) e integrante do Oxford Internet Institute, o norte-americano Daniel Arnaudo afirma que as interferências de robôs em eleições de todo o mundo colocam a democracia em risco. Segundo o especialista, a população e os governos ainda não têm referências para lidar com a nova ameaça, que pode impulsionar candidaturas extremistas.

“Existe uma grande vulnerabilidade nos sistemas democráticos atuais”, diz Arnaudo. “Governos, partidos políticos, imprensa e eleitores estão mal preparados para responder a esse tipo de campanha.”

No Brasil, o uso desses robôs ocorre há anos. Em estudo publicado neste ano, Arnaudo avalia a atuação dessas contas em três momentos da política brasileira: as eleições presidenciais de 2014, o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff e o pleito municipal do Rio, em 2016. Em todos os casos, os robôs atuaram a favor da esquerda e da direita, ampliando a polarização. Fora do País, Estados Unidos, França e Alemanha investigam suspeitas de interferências de robôs em suas últimas eleições, marcadas pela ascensão de discursos polarizantes ou extremistas.

Integrante do Instituto Igarapé, organização brasileira especializada em políticas públicas e tecnologias, Arnaudo diz que, sem a regulação adequada, a interferência de robôs deve aumentar em 2018. “Até mesmo quando existem leis contra o uso desse tipo de tecnologia, há uma grande dificuldade em identificar as contas e como elas estão conectadas às campanhas.”

Em sua pesquisa, o senhor apontou a presença de bots em momentos políticos marcantes nos últimos três anos. O que explica o aumento do uso dessas contas automatizadas no debate político brasileiro?

Campanhas políticas têm um interesse em divulgar suas mensagens, sejam elas positivas sobre os próprios candidatos ou negativas sobre os adversários. Os bots são a nova maneira que encontraram para alcançar esse objetivo. Por isso, o seu uso aumenta nesses períodos eleitorais ao lado das mensagens políticas tradicionais. A diferença entre as duas formas é o volume de interações que os bots conseguem criar, aumentando e encorajando usuários reais a apoiar determinadas agendas e espalhar informações, verdadeiras ou falsas, que eles buscam promover ou desacreditar.

O uso de bots vai crescer nas eleições de 2018? Quais as consequências dessas interferências em uma campanha eleitoral tão polarizada como a que se projeta para o ano que vem no Brasil?

É muito provável que o uso de bots e formas semelhantes de propaganda computacional vão aumentar em 2018. Há mais pessoas online, mais eleitores usam as redes sociais para se informar e tais estratégias estão crescendo em escala e sofisticação. O uso dessas técnicas aumenta a polarização porque não há filtros: os bots são programados para compartilhar qualquer conteúdo, seja do próprio criador ou de outras contas. Esse conteúdo pode ser verdadeiro ou falso e é criado para induzir e incentivar discursos ainda mais polarizados e extremos.

Quais tipos de candidatos fazem mais uso desse tipo de conta automatizada?

Tanto a esquerda quanto a direita usaram este tipo de propaganda computacional no passado e todos os candidatos olham para essas ferramentas como novas oportunidades para impulsionar suas mensagens e atacar os adversários. Candidatos extremistas, da esquerda ou da direita, têm mais sucesso em usá-las para manipular o medo e os desejos das pessoas. Certamente, os bots são capazes de ajudar a eleger candidatos extremistas, visto que eles se prendem a discursos mais polarizados e fáceis de ser compartilhados.

Quais as semelhanças e as diferenças entre o uso de robôs nas eleições brasileiras de 2014 e nas eleições americanas e europeias?

A grande diferença é que as redes de bots encontradas nas eleições brasileiras eram domésticas, enquanto nos Estados Unidos e na Europa um número significativo de evidências confirma o apoio da Rússia a essas contas como forma de interferir no debate público. No entanto, os métodos utilizados nos desses casos são muito similares e, em muitos aspectos, as eleições de 2014 anteciparam elementos presentes nas eleições americanas e europeias, como a rápida velocidade no compartilhamento de conteúdos falsos por meio de bots.

A presença constante dos bots em debates políticos importantes como as eleições dos Estados Unidos, a votação do Brexit e as disputas eleitorais na França e Alemanha apontam uma fragilidade mundial no combate a esse tipo de interferência?

Definitivamente existe uma grande vulnerabilidade nos sistemas democráticos atuais. Governos, partidos políticos, imprensa e eleitores estão mal preparados para responder a esse tipo de campanha. As leis eleitorais muitas vezes evitam regular o conteúdo político online, diferente do que se vê nos jornais, na rádio e na televisão. Isso cria brechas que podem ser aproveitadas pelos candidatos. Por sua vez, os partidos políticos querem preservar a prerrogativa de usar essas técnicas automatizadas e evitam denunciá-las quando elas apoiam os seus candidatos. A imprensa, muitas vezes, é incapaz de verificar tantas histórias falsas e até mesmo quando revela a desinformação, ajuda a espalhá-la. Infelizmente, os eleitores comuns ainda carecem de fontes de referência para ajudá-los a navegar pelas redes sociais e outros sistemas de informação online que podem ser facilmente manipuláveis.

As leis eleitorais brasileiras ainda são fracas no combate ao uso prejudicial dos bots nos debates políticos?

As leis eleitorais sempre vão ter brechas no que se refere às novas tecnologias. Infelizmente, até mesmo quando existem leis contra o uso desse tipo de tecnologia, há uma grande dificuldade em identificar as contas e como elas estão conectadas às campanhas. Além disso, graças à possibilidade de programar facilmente novas redes de bots para substituir as descobertas, a fiscalização dessas contas é realmente um grande problema a ser enfrentado.

O que precisa ser feito para corrigir essa deficiência nas leis brasileiras sobre cibersegurança?

A principal falha na regulação online brasileira é a falta de proteção dos dados pessoais dos usuários. Um importante componente dessas campanhas computacionais é o uso de propagandas políticas bem pensadas e direcionadas a partir de psicometria e dados detalhados dos eleitores que estão disponíveis gratuitamente nas redes sociais. Empresas internacionais de consultoria política, como a Cambridge Analytica, que teve um grande papel na votação do Brexit e na campanha de Donald Trump, usam informações coletadas do Facebook e de outras fontes para oferecer perfis detalhados dos eleitores. Esses perfis podem ser usados para mapear os usuários em propagandas específicas projetadas para maximizar seus medos, desejos e emoções com precisão clínica. Por isso, uma lei para proteger os dados dos usuários, restringindo o compartilhamento dessas informações e punindo o uso mal-intencionado, é muito necessária para a segurança comercial e política, além de garantir a privacidade dos cidadãos.