Crise climática e lama

Por Ilona Szabó

Para a Folha de S. Paulo

O que mais me impressionou positivamente no encontro do Fórum Econômico Mundial em Davos, na semana passada, foi a centralidade da discussão sobre mudanças do clima. Pelo quarto ano seguido a crise climática é apontada como a maior ameaça ao desenvolvimento econômico global.

 

Apesar de existirem transformações mundo afora no âmbito governamental e privado, como o investimento em energias renováveis e limpas, muitas empresas e governos não se deram conta de que, além do custo humanitário, a crise climática já faz doer muito no bolso, e acham que a inação ainda é uma opção.

 

O “Relatório Sobre o Risco Global” de 2019 (“Global Risk Report”), publicação que destaca os principais desafios mundiais e para a qual o Instituto Igarapé contribui, mostra a profunda interconexão entre os riscos ambientais e os níveis de bem-estar humano, crescimento econômico e segurança global. Em um dos painéis de Davos mostramos como isso se dá na prática, a partir de um estudo da região africana do Sahel. Em breve mostraremos essas correlações na Amazônia brasileira. Posso adiantar que o que já sabemos é de tirar o sono.

 

Ainda estava em Davos quando soube da tragédia de Brumadinho, em Minas Gerais. A proteção do meio ambiente foi o foco das principais perguntas que recebi sobre a atuação do novo governo do Brasil por líderes de diversos setores e nacionalidades por lá. A delegação do governo brasileiro deixou dúvidas em relação ao compromisso com as metas de proteção do clima.

 

A declaração do presidente de que “por ora” o Brasil não deixará o acordo do clima destoou, em muito, da responsabilidade assumida pela maioria dos outros chefes de Estado presentes no encontro. Meu destaque especial vai para as mulheres líderes da Alemanha e da Nova Zelândia —Angela Merkel e Jacinda Ardern. É de tirar o chapéu.

 

O presidente da Vale também estava em Davos, mas não o encontrei falando nos painéis que discutiam a responsabilidade das empresas e suas ações para ajudar a manter o aquecimento global em menos de 1,5ºC, apontado como fundamental para nossa sobrevivência e a do nosso planeta nos principais relatórios científicos mundiais sobre o tema.

 

A mineração é atividade com grande potencial de dano ambiental, seja por desmatamento, poluição de rios e terras por mercúrio e outros químicos ou pelo risco no manejo dos rejeitos gerados no processo de extração de minérios. Espero ouvi-lo, da próxima vez, dividindo as lições aprendidas e ações proativas que tomaram.

 

Ao pensar nas pessoas mortas e desaparecidas, em suas famílias, e na natureza afetada pelo rompimento das barragens de Brumadinho, Mariana e tantas outras que já se romperam ou têm grande risco de colapsar, não nos resta opção senão a de entrar de corpo e alma na causa ambiental.

 

Como mostra a agenda de propostas do Movimento Agora, podemos alavancar o nosso capital natural transformando a exploração sustentável de recursos naturais em vetor do desenvolvimento social e da conservação ambiental.

 

Torço para que o Brasil possa liderar pelo exemplo essa discussão no próximo encontro do Fórum Econômico Mundial em Davos e em outros eventos relevantes nacionais e internacionais sobre o tema.

 

Precisamos engajar o governo como um todo, as empresas e meios de comunicação. Tenho certeza de que a sociedade civil, que liderou até agora os avanços nas discussões e cobrou as ações que logramos até aqui, ampliará ainda mais o seu papel-chave no pouco tempo que nos resta para vencer essa batalha de vida ou morte.

 

Ilona Szabó de Carvalho

 

Empreendedora cívica, mestre em estudos internacionais pela Universidade de Uppsala (Suécia). É autora de “Segurança Pública para Virar o Jogo”.