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‘2017 será tão volátil quanto 2016’, diz especialista em Política Internacional

26 de dezembro, 2016

Muita gente duvidava, e lá veio 2016 cheio de surpresas. E se teve uma certeza que 2016 deixou, foi a de que os grupos de direita estão, novamente, ganhando espaço no cenário internacional.

Motivo de piadas e ironias no começo da sua campanha, Donald Trump surpreendeu analistas, institutos de pesquisa e imprensa e se tornou o 45º presidente dos EUA.

Desde a aprovação do Brexit – referendo que definiu pela saída do Reino Unido da União Europeia, passando pelo fortalecimento da direita na França e pela renúncia do premiê italiano, Matteo Renzi, a Europa também vive um momento de incertezas.

Para Robert Muggah, especialista em segurança e desenvolvimento e um dos fundadores do Instituto Igarapé, 2017 vai ser um ano ainda mais decisivo para o bloco.

“2017 é o ano mais importante para a União Europeia desde sua fundação. Se o Brexit e a eleição de Trump representaram uma ameaça existencial para o bloco, as eleições na França e na Alemanha representam uma ameaça mortal”, explica.

Ele se refere, em primeiro lugar, à possibilidade – não tão remota – de que Marine Le Pen, principal figura do pleito presidencial que vai escolher o sucessor de François Hollande, seja eleita mandatária da França. Le Pen, candidata pelo partido de extrema-direita Frente Nacional, já indicou que se ganhar as eleições do ano que vem, vai convocar um plebiscito para discutir a permanência da França da União Europeia.

“A sua campanha tem o mesmo apelo da de Trump: uma aposta no medo e na ansiedade provocados pelo terrorismo, pela imigração, pela perda da identidade e pela fragilidade econômica face à globalização. Uma vitória de Le Pen será a confirmação dos nacionalismos que cruzam a Europa”, descreve Diogo Queiroz de Andrade, em editorial do jornal português Público.

Muggah explica que, atualmente, há um “interesse em ver uma União Europeia enfraquecida”, principalmente de figuras como Trump ou ainda de Nigel Farage, político ultranacionalista britânico.

Para a professora de Relações Internacionais da ESPM, Denilde Holzhacker, há uma convergência de fatores que explicam o fortalecimento da direita em 2016 e a tendência que deve ser mantida para o ano que vem: questões sociais, econômicas e a crise migratória. Esta última, explica Holzhacker, foi vista como uma das “responsáveis pela crise econômica e pela perda de benefícios sociais, especialmente nos EUA e na Europa”.

Muggah também enumera, entre os fatores que possibilitaram a emergência de candidatos como Trump e, em 2017, Le Pen, “a estagnação de salários, uma ressaca da crise de 2008” e também aspectos culturais, que rejeitam a ideia da globalização, bastante difundida nos últimos 20 anos, e reforça ainda que o fenômeno não é restrito à América do Norte e Europa.

“Um fator que está muito forte este ano é a ideia de que é preciso buscar alternativas políticas não tradicionais, e o Trump acaba sendo o caso mais representativo, mas pode-se perceber uma discussão semelhante em outros países”, explica Holzhacker, que cita o presidente da Argentina, Mauricio Macri, e até mesmo o prefeito eleito de São Paulo, João Doria.

EUA

Um ator de extrema importância no cenário internacional, os EUA viverão um momento bastante peculiar no ano que vem: a partir de 20 de janeiro, Trump assume a Casa Branca no lugar do democrata Barack Obama. Ele chega ao cargo mais alto do Executivo sem antes ter ocupado algum posto público ou militar e vem formando um governo descrito por Muggah como “um dos mais de direita que já se viu nos EUA”.

“As mudanças impostas por Trump virão com força e rápido”, prevê Muggah, citando a construção do muro na fronteira com o México, as reformas prometidas pelo republicano no sistema de saúde e também no setor de infraestrutura.

O especialista também aposta em “posições controversas”, principalmente na área da diplomacia. “É claro que vai haver um endireitamento também da diplomacia. O Trump tem uma postura isolacionista e protecionista. No entanto, como precisamos esperar para ver como os outros países responderão, presumo que vá demorar um pouco mais para que essas políticas tenham mudanças tão significativas.”

Em 2017 também, os Democratas voltam a ser “oposição”. Para a professora Holzhacker, também é o momento de que a esquerda “olhe para dentro e se questione”.

“O [Bernie] Sanders, apesar de mobilizar jovens e outros grupos sociais, não conseguiu dar, para o restante da opinião pública, indicações do que seriam essa nova política e esses novos processos. Pode ser porque os grupos mais progressistas teriam que ter uma agenda mais clara e não conseguiram, mas também porque – em parte – a agenda conservadora foi muito forte, pois é motivada pelo medo e pela necessidade de trazer segurança. O Sanders foi um caso importante, porque disse que precisa reformular absolutamente tudo, e os grupos estão preocupados com questões mais práticas, como garantia de emprego e renda”.

Para ela, o fortalecimento da direita também tem a ver com discurso projetado dentro do momento histórico que vivemos. “As preocupações e incertezas fazem as pessoas buscarem respostas mais pragmáticas.”

Refugiados

Com as eleições na Alemanha e na França marcadas para o ano que vem, a questão dos refugiados também deve voltar à pauta política na União Europeia.

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, já afirmou que vai ser mais rigorosa na entrada de estrangeiros no país, de olho em um quarto mandato. Merkel perdeu bastante popularidade por conta de sua política de acolhimento: apenas em 2015, a Alemanha recebeu 900 mil solicitações de asilo.

“O exemplo da Merkel é muito sintomático, de um partido que é de centro, e que tinha bandeiras pró-integração e pró-imigração, mas que em razão das eleições do próximo ano, está fazendo uma mudança para uma posição mais conservadora em algumas temáticas”, explica Holzhacker.

Muggah complementa, e diz que se Merkel sair do poder, a União Europeia está “absolutamente acabada”.

“Os movimentos nacionalistas estão em marcha, e a chegada do Trump ao poder e a aprovação do Brexit são apenas a ponta do iceberg. Os extremos estão voltando”, finaliza Muggah, apostando em um “2017 tão volátil quanto foi 2016”.

Brasil Post