A democracia brasileira prevalece. Agora começa o trabalho mais difícil

Declaração do Instituto Igarapé

Rio de Janeiro, 26 de outubro de 2026 – O Instituto Igarapé saúda a conclusão pacífica das eleições de 25 de outubro, que reelegeram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e parabeniza o povo brasileiro por seu notável compromisso com a democracia. Mais de 128 milhões de brasileiros votaram em uma eleição acirradíssima, reafirmando a importância das urnas e das instituições que as protegem.

A democracia brasileira passou por mais um teste difícil. O resultado lembra que é possível resistir a tendências autoritárias quando os cidadãos se mobilizam e o Estado de Direito se mantém firme. “A vitória mais importante pertence à democracia brasileira e ao seu povo. Os eleitores se manifestaram. A responsabilidade agora é respeitar sua decisão, proteger nossas instituições e governar para todos os brasileiros, inclusive para aqueles que votaram de forma diferente”, afirmou Ilona Szabó de Carvalho, cofundadora e presidente do Instituto Igarapé.

A eleição demonstrou o extraordinário poder da ação coletiva e o despertar da sociedade civil brasileira. Dezenas de milhões de pessoas se mobilizaram nas redes e nas ruas, organizando-se em redes digitais, engajando suas comunidades e ajudando a pautar o debate nacional.

O Brasil mostrou que é possível resistir a tendências autoritárias quando as pessoas se organizam, se mobilizam pacificamente e insistem em seus direitos democráticos. Mas vencer uma eleição é apenas parte da tarefa. O país continua dividido e reconstruir a confiança exigirá paciência e disposição para o diálogo. Há uma oportunidade de renovar relações entre diferentes campos políticos, incluir de forma mais plena a sociedade civil às decisões públicas e construir coalizões capazes de promover reformas que sobrevivam a qualquer governo. A energia cívica liberada durante a campanha merece um lugar duradouro na vida política do país.

A resiliência da democracia brasileira dependerá em grande medida da força de suas instituições públicas. A Polícia Federal, o Ministério Público, a Defensoria Pública e o Poder Judiciário são essenciais para manter o Estado de Direito e garantir que a justiça seja feita de forma equitativa. Sua independência deve ser protegida, assim como os recursos e a capacidade profissional de que precisa para cumprir suas funções.

Isso é especialmente importante em um país onde o crime organizado ampliou seu alcance sobre as economias locais e as instituições públicas. O Brasil continua enfrentando sérios desafios relacionados à violência armada, à corrupção e a redes criminosas que atuam além das fronteiras. Enfrentá-los exige investigações mais eficazes, instituições de justiça criminal mais fortes e esforços contínuos de prevenção da violência. O respeito aos direitos humanos deve permanecer no centro desse esforço.

“A democracia brasileira será julgada, em parte, pela capacidade de suas instituições de garantir segurança e justiça às pessoas comuns. Enfrentar o crime organizado exige instituições independentes e responsáveis, capazes de desarticular redes criminosas sem abrir mão dos direitos que existem para defender”, afirmou Melina Risso, diretora de pesquisa do Instituto Igarapé.

Democracia e proteção do clima e da natureza estão estreitamente ligadas. O avanço ambiental depende de leis aplicáveis, de fiscalização independente e de instituições capazes de resistir à interferência política. O Brasil mostrou o que políticas sensatas podem alcançar. Desde 2023, uma fiscalização ambiental mais rigorosa e a retomada da coordenação entre órgãos públicos contribuíram para sucessivas reduções do desmatamento na Amazônia.

Esse avanço depende do trabalho essencial do Ministério do Meio Ambiente, do IBAMA, do ICMBio, da FUNAI, do INPE e dos órgãos ambientais estaduais, muitas vezes em conjunto com a Polícia Federal e o Ministério Público. Essas instituições são indispensáveis para enfrentar a extração ilegal de madeira, o garimpo ilegal e as redes criminosas responsáveis pela destruição ambiental. Elas precisam de financiamento estável, autonomia técnica e respaldo político. A tarefa vai muito além da Amazônia. O Brasil precisa proteger e regenerar todos os seus seis biomas terrestres, incluindo a Mata Atlântica, o Cerrado, a Caatinga, o Pantanal e o Pampa, além de seus ecossistemas marinhos, reconhecendo os direitos e as contribuições das comunidades que dependem deles.

Preservar esses avanços também exigirá financiamento climático e para a natureza que seja confiável. Acima de tudo, os recursos precisam chegar aos povos indígenas, às comunidades quilombolas e a outros grupos vulneráveis que enfrentam alguns dos maiores riscos ambientais e que, muitas vezes, desempenham papel de liderança na proteção dos ecossistemas. Instituições públicas fortes são a base para atrair investimento privado e sustentar parcerias internacionais. Os avanços ambientais do Brasil desde 2023 são significativos, mas continuam vulneráveis a retrocessos políticos e à fiscalização frágil. O país tem a oportunidade de torná-los duradouros.

A eleição brasileira traz uma mensagem que vai muito além de suas fronteiras, especialmente para os países do Sul Global que enfrentam pressões sobre as instituições democráticas e as liberdades civis. Ao lado da transição eleitoral na Hungria no início deste ano e do notável movimento liderado por estudantes na Sérvia, que resultou em uma conquista eleitoral, o Brasil demonstra como a mobilização cívica contínua, as instituições públicas e as urnas podem desafiar um poder político entrincheirado. O autoritarismo não é inevitável nem irreversível. Cidadãos organizados, apoiados por instituições democráticas que funcionam, podem mudar o rumo de seus países.

“O Brasil lembrou ao mundo que a democracia vale a pena ser defendida e que os cidadãos mantêm o poder de definir seu futuro. O trabalho mais difícil começa agora: fortalecer as instituições que protegem nossos direitos e reconstruir a confiança necessária para seguirmos juntos”, afirmou Ilona Szabó. Como organização independente e apartidária, o Instituto Igarapé mantém seu compromisso de trabalhar com o governo e a oposição, as instituições públicas, a sociedade civil e as empresas de todo o espectro político para promover soluções baseadas em evidências nas áreas de segurança, natureza e clima. O Brasil tem a oportunidade de construir a partir deste momento democrático. O que importa agora é o que o país fará com ele.

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