A vida das mulheres no país com maior disparidade de gênero do mundo

SocioEconomia

Janeiro, 2018

Iêmen: um país onde uma menina pode ser obrigada a se casar aos 11 anos; poucas têm acesso aos serviços de saúde e educação; e a violência contra mulher é cultural

Sabiha tinha 11 anos quando foi obrigada pelos pais a se casar com um homem 12 anos mais velho, em troca de dinheiro. O contrato de casamento determinava que relações sexuais só poderiam ocorrer após a primeira menstruação da menina, mas o marido a estuprou antes disso. Teve o primeiro filho aos 13 anos e, aos 18, já era mãe de três. Ela nunca foi à escola, dedicava-se inteiramente ao trabalho doméstico e era vítima de violência dentro de casa.

Durante um amanhecer, o marido a flagrou debruçada na janela, apreciando a paisagem, sem o niqab (véu que cobre a face e só revela os olhos). O homem não admitia que o rosto dela ficasse exposto, mesmo que ninguém estivesse vendo, e atirou na jovem em nome da honra da família. Com uma bala na coluna vertebral, Sabiha ficou paralítica e perdeu a guarda dos filhos. Devido às suas condições, a expectativa era de que vivesse, no máximo, por mais um ano.

O caso é real e virou história em quadrinhos no livro O Mundo de Aisha, do autor Ugo Bertotti, publicado no Brasil pela editora Nemo. A obra foi inspirada nos relatos de viagem da fotojornalista francesa Agnes Montanari, que viu de perto a realidade das mulheres no país com mais disparidade de gênero no mundo: o Iêmen.

– Sim, as mulheres do Iêmen cobrem os rostos por várias razões, algumas envolvendo princípios religiosos ou costumes. No começo, eu achava que elas estavam fora de alcance, mas, uma vez que você descobre quem está por trás, o véu desaparece, simbolicamente falando. Conheci mulheres determinadas, mulheres simples com um senso comum incrível, que chamo de inteligência. Mas, a batalha delas é mais difícil do que a nossa – disse Agnes Montanari ao socioeconomia.org.

O RANKING MUNDIAL DE DISPARIDADE DE GÊNERO

Segundo o Relatório Global de Disparidade de Gênero de 2016, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, o país árabe ocupa a última posição na lista de 144 nações, que vai do local considerado o melhor para ser mulher – no ano passado, a Islândia – àquele analisado como o pior. O ranking é anual e há uma década o Iêmen aparece em último.

Cada país é pontuado em critérios de participação econômica e oportunidades, nível educacional, saúde e sobrevivência, e empoderamento político das mulheres. Acompanhando o Iêmen no final da lista está a vizinha Arábia Saudita, que ocupa o 141º lugar e, no final de setembro, virou notícia após o rei Salman bin Abdelaziz autorizar que as mulheres dirijam a partir de junho de 2018, pois era o único país no mundo no qual isso ainda era proibido. Síria e Paquistão estão nas 142ª e 143ª posições, respectivamente.

Para Cila Lima, doutora em História Social pela USP e autora do livro Feminismo Islâmico: mediações discursivas e limites práticos, é importante ressaltar que a violência contra a mulher está presente em todos os países:

– Em alguns, principalmente nos mais ricos e com desenvolvimento educacional mais saliente, essa violência tende a ter diminuído. Mas, cada um tem especificidades quanto a isso. No Brasil, por exemplo, a cada 6 segundos uma mulher é estuprada, e a cada 2 horas uma mulher é vítima (na maioria das vezes, morta) por alguém de sua intimidade, como marido, namorado etc. – citou a pesquisadora sobre o nosso país, que está na 79ª posição do ranking.

O HISTÓRICO DA DISPARIDADE DE GÊNERO NO IÊMEN

O Iêmen é um país com uma população de 27,58 milhões de habitantes e um produto interno bruto de 27,32 bilhões de dólares (dados de 2016 do Banco Mundial). A religião predominante é o islamismo. Questões históricas, culturais e religiosas incitam a disparidade de gênero, de modo que as tradições da sociedade muitas vezes se mostram mais fortes do que a própria constituição – ainda que ela estabeleça que todos os cidadãos são iguais perante a lei.

– Grande parte dos países de maioria muçulmana passaram por longos períodos de governos autoritários. Há as interpretações sobre a religião que valorizam a punição em vez da benevolência. Há a intervenção da ideologia islamista, muitas vezes agressiva, em que as convicções sobre as mulheres são profundamente misóginas. Há os aspectos socioeconômicos, muitos desses países estão em situação de extrema pobreza. Há também um elevado número de conflitos armados – explicou a pesquisadora Cila Lima.

Tradicionalmente, as iemenitas são reduzidas à esfera privada e ao trabalho doméstico, enquanto os homens ocupam os cargos públicos. Isso começa ainda na infância e no acesso à educação básica: segundo um relatório divulgado pela Unicef em 2013, a chance de meninas entrarem na escola é 50% menor do que a de meninos, além de o nível de desistência escolar delas ser maior.

O casamento infantil é uma prática comum no país. Em troca de um dote pelo matrimônio, famílias forçam garotas, ainda menores de idade, a se casarem com homens mais velhos. Um levantamento realizado pelo Human Rights Watch, em 2013, apontou que, no Iêmen, 14% das meninas se casam antes dos 15 anos e 52% antes dos 18. A divulgação deste dado ocorreu depois da morte de Rawan, uma criança de 8 anos que teve ferimentos internos no útero por causa da relação sexual com o marido de 40 anos; ela foi vendida pelo padrasto por cerca de R$ 6 mil.

A permissão para o casamento depende sempre de um tutor do sexo masculino e mulheres do Iêmen não podem se casar com um homem de outro país sem a autorização da família e do Estado. No tribunal, uma mulher é considerada “meia pessoa”, ou seja, são necessários os testemunhos de duas mulheres para se igualar ao de um homem. O processo de solicitação de divórcio por uma mulher é extremamente conflituoso, enquanto um homem nem precisa apresentar uma justificativa.

Violência física e psicológica, assédio sexual, estupro, gravidez forçada, mutilação genital e acesso restrito a serviços de saúde enfatizam ainda mais a realidade de muitas iemenitas.

– Há violências que estão no âmbito moral, como a não permissão de estudar, trabalhar, iniciar um divórcio ou ter controle sobre a própria vida sexual. Em alguns países do mundo muçulmano, há violências gravíssimas, como o apedrejamento de mulheres e o estupro coletivo como pagamento de dívidas, por causas relacionadas a tradições étnicas, religiosas e político-econômicas. Hoje, a mutilação genital feminina ocorre numa minoria de países, mas a prática ainda afeta mais de 125 milhões de mulheres e meninas. E já se tem consciência de que não é algo ligado especificamente à religião, pois também acontece em comunidades cristãs – esclareceu Cila.

AS FORMAS DE RESISTÊNCIA E OS OBSTÁCULOS ATUAIS

Para Adriana Abdenur, pesquisadora do Instituto Igarapé e consultora do Departamento de Assuntos Políticos da ONU, a participação maior das mulheres iemenitas no cenário político começou na década de 70, quando o Iêmen era dividido e no sul ficava a República Popular do Iêmen, que tinha uma agenda legislativa progressista em relação a gênero. E, ao longo dos anos, as atuações feministas ganharam força: mulheres que levantaram voz nas negociações sociopolíticas do país; movimentos político-religiosos, como existe o feminismo islâmico, que luta contra a opressão com base na reinterpretação das fontes muçulmanas; ONGs que realizam trabalhos para promover mudanças na vida de mulheres etc.

– A imagem da mulher iemenita que chega às pessoas externas, a nós da América Latina, é de vítima, de uma mulher que sofre física, psicológica e socialmente. Mas, na verdade, ela é um ator político potencial. Tem um longo histórico de ativismo, de quebra de paradigmas e mediação – destacou Adriana.

Em 2008, a primeira mulher do Iêmen a se tornar advogada alcançou uma vitória inédita na luta contra o casamento infantil: ela conseguiu que uma menina de 10 anos se divorciasse do marido, que a violentava frequentemente. Em 2011, uma das ganhadoras do Nobel da Paz foi a iemenita Tawakkol Karman, ativista dos direitos humanos e criadora do grupo “Mulheres Jornalistas Sem Correntes”.

Mas, desde 2015, o país está em conflito armado, com mais de três milhões de pessoas deslocadas e 10.000 mortos até o início de 2017. O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) do Iêmen ressalta que crises humanitárias agravam consideravelmente as situações de mulheres e meninas, pois, sem um sistema devido de proteção, elas ficam ainda mais vulneráveis a abusos e exploração.

De acordo com um relatório de julho de 2017 da organização, são 2,6 milhões de mulheres em risco de violência baseada em gênero, 52 mil em risco de violência sexual e mais de 10 mil casos reportados. Além disso, há 1,1 milhão de grávidas desnutridas e 52,8 mil de grávidas que tendem a desenvolver complicações.

– A mulheres se tornam desproporcionalmente vítimas do conflito. Os avanços que foram feitos na esfera legislativa em relação aos direitos da mulher, desde a esfera doméstica até a participação política, foram abandonados. Atualmente, você não tem mulheres participando nem das partes beligerantes, atuando como combatentes ou lideranças, nem do processo de paz. O retrocesso é quase absoluto – lamentou Adriana.

Nota da equipe do socioeconomia.org: Os jornalistas e pesquisadores do socioeconomia.org têm consciência de que o contexto histórico, social, político, religioso e cultural do Iêmen é completamente distinto do contexto brasileiro. Acreditamos que disparidade de gênero é um assunto que deve ser tratado nos mais variados cenários, seja em países do Ocidente ou do Oriente.